Mangueira propõe em seu enredo a retomada do carnaval popular genuíno


Detalhe de alegoria da Mangueira em 2018

Detalhe de alegoria da Mangueira faz referência ao carnaval tradicionalLeandro Vieira/Divulgação/Mangueira

Com dinheiro ou seu dinheiro, eu brinco. Esse é o enredo que a Mangueira vai levar para a Marquês de Sapucaí este ano. Além de uma crítica ao corte de recursos repassados às escolas de samba pela prefeitura do Rio, a Verde e Rosa vai trazer de volta um carnaval popular do tempo em que o apoio financeiro não era condição principal para a alegria do folião – nem na rua, nem nos desfiles, desde o seu início, nos anos 30 na Praça Onze, e depois na Avenida Presidente Vargas (no Centro), até chegar à Marquês de Sapucaí, nos anos 80.



No comando do barracão da Estação Primeira de Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira disse que a manifestação popular volta a marcar o seu espaço na festa. “O meu carnaval é um carnaval de liberdade, que aproveita este momento para dizer que o carnaval é uma festa. Acaba criticando não só o prefeito, porque o carnaval da Mangueira levanta a bandeira dos valores próprios da cidade do Rio de Janeiro, mas também critica a própria gestão das escolas de samba”, indicou.

Esta reportagem é parte da série que a Agência Brasil publica, até o carnaval, sobre os preparativos para os desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro. Confira as demais matérias.

Crítica ao modelo atual de carnaval

Para o carnavalesco, que pelo terceiro ano consecutivo é responsável pelo enredo da agremiação, a estrutura atual das escolas de samba engessa a festa. “A dependência do capital acaba determinando que a escola que vai ganhar o carnaval é a que vai gastar mais dinheiro, quando deveria ser a escola que apresenta a melhor proposta. A melhor escola não é a que gasta mais, mas a que arrebata no desfile”, disse.

Vieira tem quatro anos de história trabalhando nos desfiles – antes da Mangueira, foi carnavalesco da Caprichosos de Pilares na Série A em 2015. Integrante do seleto grupo de carnavalescos formados na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele contou que sempre sempre defendeu o carnaval como manifestação cultural genuína e foi contrário à dependência do dinheiro para fazer um bom carnaval. Para ele, o corte de recursos da prefeitura do Rio acabou levantando a discussão do modelo atual de carnaval e de sua pertinência.

“Achei que era a melhor hora para tratar do assunto. Diante de um cenário onde a crise econômica e a crise financeira assumiram papel de vedete do carnaval 2018, achei legal ter uma escola que levantasse a bandeira de que a crise econômica não é vedete de nada. A vedete do carnaval sempre deverá ser a criatividade e o luxo. Deve ser a reinvenção da festa”, pontuou.

No carnaval popular desfilado pela Mangueira, a escola abre espaço para os tradicionais blocos carnavalescos Cordão da Bola Preta, Bafo da Onça e Cacique de Ramos, responsáveis por arrastar uma multidão de foliões pelas ruas do Centro do Rio.

Serão lembrados ainda os antigos banhos de mar à fantasia, uma tradição carnavalesca que se perdeu com o tempo, e a cultura das fantasias de bate-bola – também chamadas de Clóvis ou rodado –, que se assemelham à roupa de um palhaço porém com uma máscara aterrorizante, tão comuns em bairros das zonas norte e oeste da cidade. “Essa é a memória do carnaval que a cidade tem. O enredo da Mangueira é um olhar do carnaval que todo mundo gosta. Quem viveu tem saudade e quem não viveu espera viver”, completou o carnavalesco.

Detalhe de alegoria em homenagem ao bloco Cacique de Ramos mostra o símbolo da agremiação

O tradicional bloco Cacique de Ramos, que tem a Mangueira como sua madrinha, será homenageado no desfileLeandro Vieira/Divulgação/Mangueira

Homenagem ao Cacique de Ramos

O cantor e compositor Ubirajara Félix do Nascimento, o Bira Presidente, de 81anos, dos quais 57 na presidência no bloco Cacique de Ramos, será um dos destaques da Mangueira. Bira, que integra o grupo Fundo de Quintal, recebeu com muita emoção convite e lembrou que a Verde e Rosa é madrinha do Cacique. “Eu me senti emocionado e agradecendo a Deus a estabilidade do Cacique”, destacou, completando, que até hoje o bloco se mantém com recursos próprios e chega a ser uma das resistências pela permanência dos antigos carnavais populares do Rio.

Para o Bira, a origem do carnaval carioca é o folião e “modéstia a parte”, o Cacique, um bloco criado por integrantes de três famílias do bairro de Ramos, inclusive a sua, contribuiu muito para isso.

E não só nos desfiles durante o carnaval. O bloco é também conhecido por descobrir e dar visibilidade a muitos sambistas. “O grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Dudu Nobre, a falecida Jovelina [Pérola Negra], Neguinho da Beija-Flor, Beth Carvalho, Luiz Carlos da Vila, João Nogueira, Emílio Santiago. Olha, se eu ficar falando aqui vou falar o dia todo”, contou sorrindo.

E por falar em saudade de antigos carnavais, Bira recordou que os componentes do Cacique e do Bafo da Onça, além de uma certa rivalidade, tinham a vaidade de mostrar nas ruas uma grande quantidade de integrantes.

“Quando o Cacique levou o samba Água na Boca para o desfile na Presidente Vargas, em 1963, simplesmente nos tornamos o adversário do Bafo, aí começou a disputa entre o Cacique e o Bafo da Onça e revitalizamos o carnaval. É muita história. O Bafo saía com dez mil componentes fantasiados e o Cacique também, como sai até hoje. É o único que desfila três dias. Lógico que o folião carioca sente saudade, porque o Bafo da Onça está passando por um momento muito difícil. O carnaval não pode ficar sem o Cacique, mas também não pode ficar sem o Bafo, as maiores atrações fantasiadas com alas”, disse, referindo-se à falta de recursos financeiros que levou o Bafo a deixar as ruas no ano passado.

Bira acrescentou que depois do período de rivalidade, no fim dos anos 60, houve uma confraternização entre os dois blocos para “acabar com aquela guerra que existia”.

A origem do Cacique tem ainda um lado espiritual. Bira contou que a mãe dele foi uma das primeiras filhas de santo da Mãe Menininha do Gantois da Bahia e não é por acaso que foi plantada uma tamarineira no terreno onde se localiza o bloco. “Se o Cacique tem aquela tamarineira lá, foi ela [a mãe de santo] quem mandou que arrumasse para dar muitos frutos”, concluiu.


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